quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Há uma primeira vez para tudo (parte 2)

O motivo que a levou a despertar novamente foi o cheiro forte que queimava suas narinas, vindo de um pano propositalmente colocado em sua frente. A cena que se deparou ao abrir os olhos não foi a que esperava, da sala ensangüentada com o animal morto, mas sim do rosto já conhecido do homem da noite anterior. Só agora notara que a o lado da face do homem, onde o olho injetado se localizava, estava completamente paralisada em um careta pouco amigável. O vulto negro a analisou por mais algum tempo como se procurasse alguma coisa perdida, e em seguida rumou para a mesinha com os equipamentos médicos não muito atuais. O primeiro objeto escolhido pelo homem, tinha um formato alongado se assemelhando muito a uma chave de fenda, com a única diferença da ponta, que no caso do instrumento era cuidadosamente afiada. Gabriella fitava seu seqüestrador sem entender o que ele tentaria fazer com ela que envolvesse aquela ferramenta, e logo suas duvidas chegaram ao fim. Com uma das mãos ele imobilizou a perna esquerda de Gabriella, e posicionou a ponta da estranha chave de fenda um pouco a cima do joelho da garota. Com um só impulso inseriu-a completamente na perna dela parando apenas quando o cabo do objeto não o permitia continuar. Os gritos de dor de Gabriella tomavam todo o pequeno porão que agora, para ela, parecia rodar. O homem começou a fazer um pequeno movimento, que a fazia gritar ainda mais de dor. Alguns movimentos depois Gabriella não sentia mais nada daquela perna, e foi ai que ele retirou o objeto de dentro de sua perna e virou-se para apanhar algo que parecia uma velha serra. O seqüestrador voltou-se novamente para ela, agora com a serra, e começou a cortar sua perna um pouco acima do joelho. Gabriella olhava incrédula, o que acontecia desejando com todas as suas forças apenas acordar em seu quarto e avaliar seu teto rosa, percebendo que tudo aquilo não passava de um pesadelo, mais não era o que acontecia. O homem do rosto desfigurado se afastou dela e entrou atrás de uma cortina branca no canto do pequeno porão. Gabriella não conseguia juntar coragem o suficiente para olha sua perna, sem saber o que acontecera já que não sentia mais nada naquela região a algum tempo. Com os olhos cobertos de lagrimas, embaçando sua visão, finalmente encarou sua perna e o que via fez com que toda a sala girasse ao seu redor. Sua perna havia sido decepada do joelho para baixo e o sangue pingava insistentemente no chão formando uma poça em sua volta. Quando ela enfim desistiu de tentar acordar, viu o homem voltando com uma espátula de ferro que lembrava bastante, as de madeira usadas para colocar pizzas nos fornos. Ele se aproximou dela com o objeto em uma cor vermelha, pelo fato de estar aquecido, e o encostou onde sua perna deveria estar. No momento em que ele encostou, ela não sentiu nada, mas alguns segundos depois, Gabriella começou a sentir seu corpo queimando a partir da cintura e não conseguia ter absolutamente reação nenhuma. A dor era tão grande que fez com que ela desejasse morrer naquele momento, e logo depois que a queimação chegou à cabeça Gabriella desmaiou novamente.

O que a fez despertar novamente foi uma voz que chamava seu nome quase como um ruído.
- Gabriella... Gabriella – insistia a voz – Acorda, agente precisa sair daqui.
Quando ela finalmente se deu conta de que não sonhava, e de que havia alguém em sua frente, segurando-a e procurando algum jeito de soltar seus braços.
- Paulo, como você me achou? – Disse Gabriella aflita – Foi horrível, tinha um homem e ele fez tudo isso comigo – continuou, enchendo os olhos de água – Onde ele esta, você o pegou?
Mais a ultima pergunta não precisou de resposta. Assim que ergueu a cabeça, viu o homem atrás de Paulo segurando a espátula com as duas mãos, e a desceu rapidamente atingindo seu amigo. Ela olhou toda sua esperança desabar no chão quando o menino de cabelos castanhos desmaiou. O homem de preto continuou seguindo em sua direção após derrubá-lo, e aplicou mais um golpe, que fez com que ela desmaia-se de novo.

O sol queimava sua pele através da pequena janela do porão, o que a fez pensar que se aproximava da tarde do terceiro dia que ela passava ali. Agora ao seu lado, se encontrava também amarrado, o menino que tentara salva-la. O tempo que teve para despertar novamente dentro daquele pesadelo não foi suficiente antes que o homem de preto entrasse novamente no cativeiro. Gabriella não construía mais nenhum tipo de esperança naquele momento, apenas desejava interminavelmente que tudo aquilo tivesse um fim. E novamente seus pensamentos foram interrompidos pelo choque da cena que se formava em sua mente. O homem se aproximava dela com um antigo instrumento enferrujado que lembrava um pegador de sorvete, as inúmeras ideias de o que ele poderia fazer com aquilo causaram um frio na espinha da menina. Mas antes que ele chegasse ate ela, o seqüestrador voltou-se para o menino e vagarosamente começou a inserir o pegador por dentro da pálpebra superior de seu amigo. A cena era horrorosa, e ficou ainda pior quando o menino acordou e percebeu o que acontecia. Os gritos eram aterradores, e pior que tudo, a incapacidade dela de fazer algo para ajudar. Um som de algo se rasgando fez com que o homem se afastasse do menino e voltasse para trás das cortinas brancas ao fundo do porão.
- Paulo, você esta bem? – perguntou Gabriella com um tom de dor na voz.
Infelizmente a resposta que se seguiu não foi algo sonoro. O garoto se virou para ela revelando a orbita vazia em sua face que jorrava sangue. O grito foi inevitável, o que fez o homem de preto voltar na direção deles. O pânico novamente tomou conta do corpo da garota quando o monstro a sua frente puxou um bisturi de cima da mesinha de instrumentos. Ele caminhou na direção dela, virou-se para o garoto, e com apenas uma punhalada, fez com que o bisturi penetrasse pouco mais de dez centímetros na orbita vazia na face de seu amigo. Instantaneamente algo subiu pela garganta dela, que não conseguiu segurar. Agora a cor do chão se misturava entre o vermelho e o amarelo. Alguns instantes depois o homem puxou o bisturi de dentro do menino e virou-se para Gabriella. E pela primeira vez em três dias ela ouviu algo sair daqueles lábios tortos e frios.
- Foi um prazer querida.

A primeira imagem que ela viu ao abrir os olhos foi de um teto impecavelmente branco e desconhecido, com um ventilador que girava inquieto. Não sentia mais dores, nem o cheiro desagradável do porão, apenas um incansável e repetitivo “PI” ao seu lado. Levantou as mãos, e as encarou por alguns instantes tentando se lembrar o que havia acontecido e por que aqueles tubos penetravam seus pulsos. Não conseguiu mais pensar, nem queria, apenas fechou os olhos e voltou a embarcar em seu sono vazio.

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